Estava
escuro quando eu entrei na fazenda, algumas velas iluminavam os aposentos, eu
estava passando num corredor largo e de repente em um quarto me deparei com
aquela cena na minha frente, a criança estava aos prantos pedindo para que
parasse de levar tanta cinturada, gritava por ajuda e como uma defensora da sua
cria, vi aquela mulher negra, desesperada se jogar em cima
daquele menino evitando para que mais chicoteadas ferissem as suas costas, ela
olhou bem no fundo dos olhos daquele senhor, já de meia idade, e o desafiou a
continuar o serviço, falou pra bater, mas com muita força que era pra ele não
se arrepender depois, naquele momento ele ficou como uma estátua a encarando,
tremendo e suando de tanta raiva, passaram uns 10 segundos até que o velho
soltou um grito, pegou o menino pelo braço e o levou pro lado de fora da casa,
arrastando o garoto pelo chão, enquanto a mulher batia nele pedindo para que o
soltasse, mas aquele velho era maior que aquela pobre coitada e tinha muito
mais força, enquanto puxava o menino com uma mão, afastava a mulher com tapas
enquanto ela caia indefesa ao chão.
Tinha a impressão de já ter visitado
aquela fazenda antes, algumas coisas me eram familiares, mas não me lembrava ao
certo, talvez quando muito criança, mas o estranho é que tudo me parecia ser de
muito tempo atrás, nem energia elétrica ali tinha, aquela mulher também me era
familiar, mas ninguém estava me vendo, eu estava muito assustado e quieto no
canto apenas vendo toda aquela cena de humilhação acontecer na minha frente, me
senti incapaz de fazer qualquer movimento para ajudar aquela mulher e o seu
pequeno filho e corri atras deles para o lado de fora.
No descampado, ainda dentro do
cercado, o velho ameaçou pegar a arma que estava em sua cintura para atirar no
menino, apesar de ser noite fazia um calor insuportável, estávamos no meio do
sertão, ainda gritando o chamou de aberração e que ele jamais seria pai de um
menino como aquele que nasceu pra ser escravo, a culpa era da mãe que não sabia
quem era o pai e ele com um gesto bondoso assumiu a paternidade, mas nunca
tinha aceitado. Nesse momento em que ele tira o revolver da sua cintura e
aponta para a criança, aquela mulher da pele negra e jovem, porém sofredora,
sai correndo de dentro da casa, uma casa de barro, parecia uma fazenda muito
antiga, em sua direção com um facão e gritando com muita força corre em direção
àquele senhor e acerta o velho bem no meio da sua barriga.
O velho agonizando, o sangue
derramando entre aquele barro marrom e ela começou a gritar e em meio ao choro
e seu suor que escorria de sua cabeça, falava para que todos ao redor pudessem
ouvi-la que ele que não era digno de ter tamanha fazenda, nem merecia o poder
nem os serviçais que cuidavam dos seus pertences, que era muito grata aquilo
tudo, mas na verdade era uma vida muito sofrida, de humilhações e trabalho
pesado, que aquele filho era dele sim, mas que nunca foi da vontade dela, pois
era ameaçada se não oferecesse o que ele queria, mas mesmo assim era fruto de
ventre dela e por isso o amava incondicionalmente, mas que agora tinha acabado,
a vida dela poderia ter acabado ali, mas cada um iria acertar as contas com
Deus.
O tumulto na fazenda foi se
generalizando, as maioria das pessoas começaram a soltar gritos de viva sem
acreditar no que estava acontecendo, de repente eu percebi que aquele homem era
muito poderoso, mas odiado por tantos, talvez tivesse muito poder para poder
manter tanta gente sob pressão e escravidão por tanto tempo.
Um grito de liberdade começa a ecoar
como se tivessem recebido a carta de alforria, em alto e bom som todos
começaram a emanar um grito de “liberdade, liberdade”. Naquele momento em que
aquele velho agonizava ao chão de barro bem embaixo de um pé de manga eu apenas
observava atentamente a toda aquela manifestação e me parecia estar feliz por
eles, mas ao mesmo tempo sentia a dor e o peso que aquela mulher iria carregar
pro resto de sua vida, uma dívida que talvez carregaria por outras vidas, ela
tinha acabado de matar um homem, o pai do seu filho, um senhor que por muitos
anos lhe deu moradia e comida, mas que também lhe humilhou e abusou
sexualmente. De repente um estrondo alto no meu ouvido me fez desmaiar e tudo
ficou escuro.
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