sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Cap01: Liberdade paga com dívida

     Estava escuro quando eu entrei na fazenda, algumas velas iluminavam os aposentos, eu estava passando num corredor largo e de repente em um quarto me deparei com aquela cena na minha frente, a criança estava aos prantos pedindo para que parasse de levar tanta cinturada, gritava por ajuda e como uma defensora da sua cria, vi aquela mulher negra, desesperada se jogar em cima daquele menino evitando para que mais chicoteadas ferissem as suas costas, ela olhou bem no fundo dos olhos daquele senhor, já de meia idade, e o desafiou a continuar o serviço, falou pra bater, mas com muita força que era pra ele não se arrepender depois, naquele momento ele ficou como uma estátua a encarando, tremendo e suando de tanta raiva, passaram uns 10 segundos até que o velho soltou um grito, pegou o menino pelo braço e o levou pro lado de fora da casa, arrastando o garoto pelo chão, enquanto a mulher batia nele pedindo para que o soltasse, mas aquele velho era maior que aquela pobre coitada e tinha muito mais força, enquanto puxava o menino com uma mão, afastava a mulher com tapas enquanto ela caia indefesa ao chão.
     Tinha a impressão de já ter visitado aquela fazenda antes, algumas coisas me eram familiares, mas não me lembrava ao certo, talvez quando muito criança, mas o estranho é que tudo me parecia ser de muito tempo atrás, nem energia elétrica ali tinha, aquela mulher também me era familiar, mas ninguém estava me vendo, eu estava muito assustado e quieto no canto apenas vendo toda aquela cena de humilhação acontecer na minha frente, me senti incapaz de fazer qualquer movimento para ajudar aquela mulher e o seu pequeno filho e corri atras deles para o lado de fora.
     No descampado, ainda dentro do cercado, o velho ameaçou pegar a arma que estava em sua cintura para atirar no menino, apesar de ser noite fazia um calor insuportável, estávamos no meio do sertão, ainda gritando o chamou de aberração e que ele jamais seria pai de um menino como aquele que nasceu pra ser escravo, a culpa era da mãe que não sabia quem era o pai e ele com um gesto bondoso assumiu a paternidade, mas nunca tinha aceitado. Nesse momento em que ele tira o revolver da sua cintura e aponta para a criança, aquela mulher da pele negra e jovem, porém sofredora, sai correndo de dentro da casa, uma casa de barro, parecia uma fazenda muito antiga, em sua direção com um facão e gritando com muita força corre em direção àquele senhor e acerta o velho bem no meio da sua barriga.
     O velho agonizando, o sangue derramando entre aquele barro marrom e ela começou a gritar e em meio ao choro e seu suor que escorria de sua cabeça, falava para que todos ao redor pudessem ouvi-la que ele que não era digno de ter tamanha fazenda, nem merecia o poder nem os serviçais que cuidavam dos seus pertences, que era muito grata aquilo tudo, mas na verdade era uma vida muito sofrida, de humilhações e trabalho pesado, que aquele filho era dele sim, mas que nunca foi da vontade dela, pois era ameaçada se não oferecesse o que ele queria, mas mesmo assim era fruto de ventre dela e por isso o amava incondicionalmente, mas que agora tinha acabado, a vida dela poderia ter acabado ali, mas cada um iria acertar as contas com Deus.
     O tumulto na fazenda foi se generalizando, as maioria das pessoas começaram a soltar gritos de viva sem acreditar no que estava acontecendo, de repente eu percebi que aquele homem era muito poderoso, mas odiado por tantos, talvez tivesse muito poder para poder manter tanta gente sob pressão e escravidão por tanto tempo.
     Um grito de liberdade começa a ecoar como se tivessem recebido a carta de alforria, em alto e bom som todos começaram a emanar um grito de “liberdade, liberdade”. Naquele momento em que aquele velho agonizava ao chão de barro bem embaixo de um pé de manga eu apenas observava atentamente a toda aquela manifestação e me parecia estar feliz por eles, mas ao mesmo tempo sentia a dor e o peso que aquela mulher iria carregar pro resto de sua vida, uma dívida que talvez carregaria por outras vidas, ela tinha acabado de matar um homem, o pai do seu filho, um senhor que por muitos anos lhe deu moradia e comida, mas que também lhe humilhou e abusou sexualmente. De repente um estrondo alto no meu ouvido me fez desmaiar e tudo ficou escuro.